quinta-feira, 20 de maio de 2010

algumas reflexões e uma poesia

Alguns dentre nós acreitam que podemos mudar nosso destino mudando o mundo que nos cerca. São os behavioristas de Skinner, cognitivos comportamentais.
Outros pensam que apenas podemos mudar nosso destino se nos mudarmos internamente. São os psicanalistas de Freud, Lacan, Melanie, os analistas de Jung.
Outros, ainda, creem que não podemos mudar nosso destino. São fatalistas, niilistas, existencialistas.
Eu penso que apenas podemos mudar nosso destino se mudarmos o modo como contamos nossa história: a pessoa em quem mais nossa mente acredita é em nós mesmos, e naquilo que falamos.
Quando digo que o autismo é um dom, que tenho um filho autista e, portanto, tenho um filho que tem um dom, vejo um brilho diferente nos olhos de quem me ouve. Então, isso muda tudo. Para melhor.

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Escuta:
Se existisse um mundo
sem guerras e sem paixões
sem beijos mais sem traições
sem dissimulações, sem mentiras,
sem lutas por posições.
Um mundo prá se viver
sem precisar se esconder
e onde fosse possível
ler sem ser interrompido,
sonhar mesmo sem ter dormido,
correr sem medo do tombo,
crescer sem ser corrompido.
Um mundo prá ser feliz,
sem nada de hipocrisi,
sem arma ou fisiologia,
sem ter medo do escuro,
e sem ter pavor do dia.

Escuta:
se existisse um mundo assim,
não criava um só prá mim!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

psicanálise

Imagine sua vida como sendo uma dessas balanças de ourives: dois pratos que têm que ser mantidos em equilíbrio para fechar a equação. Num desses pratos, são colocados os desejos. No outro, as repressões.
Desejos são naturais, automáticos, inconscientes. Podemos chamá-los de Id. Repressões são culturais, sociais. Podemos chamá-los de Superego. O equilíbrio necessário é fornecido pelo Ego.
Erick Berne, psicanalista americano, chamava o Id de criança, o Superego de pai e o Ego de adulto e, na sua análise transacional, sustentava que o adulto deveria sobressair aos outros dois, de modo a atingir o equilíbrio.
Falamos de forum interno. Ao equilíbrio interno dá-se o nome de homeostase. Alcaçar a homeostase depende do jogo delicado dos pratos, mas não só disso: costumeiramente, a cada desejo depositado no prato, uma repressão de mesma intensidade é colocada no outro, equilibrando a balança. O trabalho do ego, entretanto, vai provocar, ao longo do tempo, sobrepeso em ambos os lados, e a balança quebra. A quebra da balança joga o sujeito em desesperança ou em terapia, a que vier primeiro.
Na terapia, ele vai aprender que o verdadeiro ego percebe o desejo que deve ser reprimido, e o que deve ser satisfeito, de modo a preservar a balança que, em última instância, é sua própria vida, mas essa equação não está livre das condicionantes sociais que fazem parte da educação do sujeito.
Há os indivíduos onde o Id domina, e há aqueles em que o mais forte é o Superego. E há uns poucos que têm o Ego preservado, negociador, equilibrador.
Há um engano histórico na visão sobre o autista, dentro do prisma da segunda tópica de Freud: acostumados com as descrições comuns dessas crianças, de "pequenos adultos", com sua linguagem típica e sua rigidez de conduta, não percebemos que o forte, neles, é o prato do superego, não o equilíbrio do ego.
Essa constatação direcionou minha teoria e meu traballho na área: fortalecer o Id, ensinar a criança autista e ser menos rígida, sistemática, cumpridora de regras, em suma, ser mais criança vai ajudar a equilibrar a balança, portanto a fortalecer o ego.
Essa é a linha. Nela tento por o trem.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

o social

"A análise comportamental dirigi-se de forma muito mais direta para as metas a que a ficção foi erroneamente destinada a servir. As pessoas compreendem a si mesmas e controlam-se com muito mais eficácia quando compreendem as contingências relevantes... Os valores que afetam aqueles que são responsáveis por outras pessoas fornecem bons exemplos da importância em abandonar supostos atributos de um homem interior e voltar-se para as contingências que afetam o comportamento.
Há cinco tipos clássicos de seres humanos que têm sido maltratados: os jovens, os idosos, os presos, os psicóticos e os retardados. Eles são maltratados por que aqueles que os têm sob custódia carecem de simpatia, compaixão, benevolência ou não têm consciência? Não, o fato importante é que eles são incapazes de se vingar. É fácil maltratar qualquer um desses cinco tipos de pessoas sem ser, por sua vez, maltratado.
Formas melhores de governo não devem ser achadas em melhores legisladores, práticas educacionais melhores em melhores professores, sistemas econômicos melhores em administradores mais esclarecidos ou uma terapia melhor em terapeutas mais compassivos. Tampouco devem ser achadas em melhores cidadãos, estudantes, trabalhadores ou pacientes. O velho erro é procurar a salvação no caráter dos homens e mulheres autônomos, em vez de procurá-la no ambiente social que apareceu na evolução das culturas e que pode agora ser explicitamente planejado..."
B.F.Skinner, The Humanist, julho/agosto de 1972

domingo, 9 de maio de 2010

ANJOS
Mas se Deus existe, querida, e se fez tudo o que somos e vemos, então somos todos feitos de barro. Do pó viemos e para o pó voltaremos. Então, o barro é o mais precioso elemento da natureza. Mas nós insistimos em adorar o ouro, ou a prata, e até mesmo o bronze no deixa orgulhosos. E, se somos, todos, barro, então somos frágeis, flexíveis, especiais.
Anjos existem, não há qualquer dúvida que existem. Eu tenho um (ou é ele que me tem?). Se foi mesmo Deus quem o mandou, ou se ele veio por si, não importa. Importa que chegou, ficou, e é frágil, flexível, especial. Como o barro com que fomos feitos. Isso lhe confere humanidade.
Mas anjos não estão constantemente entre nós, eles são seres que estão acima de nós. Não podemos vê-los com nossos olhos, nem ouví-los, ou sentí-los, com nossos sentidos humanos, não podemos cuidá-los, ou entendê-los, com nossos conhecimentos, não podemos amá-los com nossos sentimentos. É algo assim muito diferente: amar com um toque de pele, falar com um abraço, um sorriso, olhar com os olhos voltados para dentro, comunicar-se com os silêncios. Coisa de nefelibatas. Ou de autistas.

sábado, 8 de maio de 2010

Skank - Sutilmente


CONCEITOS
Crescimento psicológico: consiste em minimizar condições adversas e aumentar o controle benéfico de nosso meio ambiente. Pelo esclarecimento do nosso pensamento, podemos fazer uso dos instrumentos disponíveis para prever, manter e controlar nosso próprio pensamento.
Recompensa: recompensar respostas corretas melhor a aprendizagem. Recompensas são reforçamentos positivos.
Ignorância - é o não conhecimento do que causa um determinado
comportamento. O primeiro passo para ultrapassar a ignorância é
admití-la; o segundo é mudar os comportamentos que a mantém.
Punição: punições informam somente sobre o que não fazer, ao
invés de informar sobre o que fazer. É o maior impedimento para
uma real aprendizagem, não capacitam uma pessoa a aprender
qual é o melhor comportamento para uma dada situação.
comportamentos punidos não desaparecem, apenas voltam,
disfarçados em novos comportamentos.
Outro problema da punição é que esta reforça exclusivamente a
pessoa que está púnindo: o pai bate no filho porque ele não fez a
tarefa. Para não apanhar, ele a faz, e reforça o comportamento do
pai em bater. O chantagista ameaça a vítima se não lhe pagar.
Pagando, ela afasta a ameaça e reforça o comportamento do
chantagista.
Não: não use o não para ensinar, apenas para negar.
"Enquanto falo com você, você olha nos meus olhos. Minhas palavras penetram nos seus ouvidos, são levadas ao seu cérebro e lá são filtradas por tudo que você conhece ou sabe ou lhe foi passado como verdadeiro durante todo seu aprendizado. Enquanto você me ouve, eu fico olhando nos seus olhos. A expressão contida neles, ou em torno, me dizem se você acreditou no que lhe disse, se sinceramente acha que lhe contei a verdade.
Desse feedback biológico eu tiro as próximas palavras, baseadas no princípio de que eu realmente necessito que você acredite em mim. É o processo mágico da comunicação, base concreta do aprendizado social.
Bem, e se você não possuísse tais filros? E se você fosse simplesmente intuitivo, como se adivinhasse a verdade pura e nua no simples fluir das palavras? E se você, enquantor falo, sequer olhasse meus olhos? Como é que eu poderia aferir se a comunicação estaria sendo eficaz, se você realmente estaria entendendo o que o que eu falo? Se você não fixa os seus olhos nos meus, como é que eu continuo? Afinal, você está me ouvindo ou não?
Poderíamos reformular, mais ou menos desta maneira:
Enquanto eu falo com você, você olha nos meus lábios. Minhas palavras penetram nos seus ouvidos, são levadas até seu cérebro e, lá, não são filtradas, pelos singelo fato de que você não tem filtros. De tudo o que lhe foi passado, você guardou apenas e tão somente o que era verdadeiro. Enquanto você me ouve, fico olhando seu olhos, mas não consigo penetrá-los. Não preciso prescrutar suas expressões para saber se você acreditou nas palavras que lhe disse. Você sempre sabe quando estou sendo sincero, porque não ouve com os sentidos, mas com as sensações. Não conseguiria mentir para você, porque não se mente para um anjo. E você é um puro anjo de barro.

terça-feira, 4 de maio de 2010

A menor parte do corpo humano é a célula. Um conjunto de células semelhantes forma um tecido. Ao conjunto de tecidos de funções semelhantes dá-se o nome de órgão. Um conjunto de órgãos de funções complementares ganha o nome de sistema. Todos os sistemas humanos nascem completos, menos um: o sistema nervoso central. Este último, composto pelo cérebro e pela medula espinhal, vai-se formando à medida em que crescemos e aprendemos.
O sistema nervoso central compreende os neurônios e as células da glia. Os neurônios fazem fluir os estímulos que constroem o saber. As células da glia auxiliam nessa função. São tres as células gliais: os astrócitos são encarregados de construir uma rede de proteção, impedindo a entrada de estranhos no interior do sistema; os oligodendrócitos formam uma bainha de gordura, chamada de mielina, em torno do eixo de saída dos neurônios (os axônios), com o intuito de protegê-lo contra acidentes. Além disso, deixam espaços distribuídos ao longo dos axônios (os nódulos de Ranvier), obrigando o estímulo a saltar, aumentando a velocidade da transmissão; as microglias são encarregadas de fagocitar ("comer") células e organismos mortos dentro do sistema. Para possibilitar essa função, secretam um líquido, o Fator Neurotrófico, espécie de saliva que amolece a "comida". Guarde bem esse nome: Fatores Neurotróficos Derivados da Glia.
Células nascem com um tempo de vida pré-definido, ao fim do qual se "suicidam". Esse processo de suicídio tem o nome de apoptose, que em grego significa "aquelas folhas das árvores que caem durante o outono para abrir espaço para o nascimento de outras, novas". É a perpetuação da vida. Desse modo, quando os oligodendrócitos, por exemplo, entram em apoptose, eles perdem seu núcleo e murcham. Esparramam-se ao longo do axônio e escondem os nódulos de Ranvier. O estímulo não flui. Aí, as micróglias entram em ação, secretam fatores neurotróficos sobre as células mortas, fagocitam o corpo morto e deixam espaço para o nascimento de novos oligodendrócitos. O sistema se refaz.
Suponha que, por algum motivo, esses fatores neurotróficos não funcionem, ou não estejam presentes em quantidade suficiente, e a fagocitação não se complete: o resíduo das células mortas impede a passagem do estímulo, e o conhecimento não se faz, ou não se faz a contento.
Imaginei algum evento cerebral que justificasse as características autistas: a rigidez de pensamento, o alto limiar à dor, a dificuldade de socialização, o interesse por partes do objeto, os diversos rituais. Se encontrasse tal evento, poderia usá-lo como tese a ser comprovada, como causa do autismo. Encontrei os fatores neurotróficos: pesquisas diversas disponíveis mostraram que um incremento artificial de fatores neurotróficos em cobaias fazia com que elas sentissem dor em situações injustificáveis, como uma carícia; que a apresentação de figuras aumenta a produção desses fatores seis a dez vezes mais frequentes do que a apresentação de palavras; que um ruído acima de certo tom cessava a fagocitação; que já foi descoberta uma versão, chamada de "net", de fatores neurotróficos defeituosos, que não se espalham por igual nos axônios e dificultam a fagocitação. Resovi investir nessa tese.
Primeiro, cataloguei ambientes que dificultavam a produção de fatores neurotróficos, para serem evitados; depois, ambientes que propiciavam a produção, a serem favorecidos. Disso deriva a dieta sensorial: ambiente que é benéfico a todos os sentidos, redutor de strees, e que é rico em estímulos que favorecem a produção de fatores neurotróficos. Criei um assim, em casa, praticamente transformei a casa num ambiente propício à dieta sensorial. E acabei entusiasmado com os resultados disso.
Ainda não consigo provar, cientificamente, que essa é a tese verdadeira. Mas ainda não encontrei um contra-ponto a isso. Então essa é a tese que persigo, e cujo sistema oriundo dela funciona muitissimo bem. De qualquer modo, é um ponto, e está aberto à discussão.