terça-feira, 4 de maio de 2010

A menor parte do corpo humano é a célula. Um conjunto de células semelhantes forma um tecido. Ao conjunto de tecidos de funções semelhantes dá-se o nome de órgão. Um conjunto de órgãos de funções complementares ganha o nome de sistema. Todos os sistemas humanos nascem completos, menos um: o sistema nervoso central. Este último, composto pelo cérebro e pela medula espinhal, vai-se formando à medida em que crescemos e aprendemos.
O sistema nervoso central compreende os neurônios e as células da glia. Os neurônios fazem fluir os estímulos que constroem o saber. As células da glia auxiliam nessa função. São tres as células gliais: os astrócitos são encarregados de construir uma rede de proteção, impedindo a entrada de estranhos no interior do sistema; os oligodendrócitos formam uma bainha de gordura, chamada de mielina, em torno do eixo de saída dos neurônios (os axônios), com o intuito de protegê-lo contra acidentes. Além disso, deixam espaços distribuídos ao longo dos axônios (os nódulos de Ranvier), obrigando o estímulo a saltar, aumentando a velocidade da transmissão; as microglias são encarregadas de fagocitar ("comer") células e organismos mortos dentro do sistema. Para possibilitar essa função, secretam um líquido, o Fator Neurotrófico, espécie de saliva que amolece a "comida". Guarde bem esse nome: Fatores Neurotróficos Derivados da Glia.
Células nascem com um tempo de vida pré-definido, ao fim do qual se "suicidam". Esse processo de suicídio tem o nome de apoptose, que em grego significa "aquelas folhas das árvores que caem durante o outono para abrir espaço para o nascimento de outras, novas". É a perpetuação da vida. Desse modo, quando os oligodendrócitos, por exemplo, entram em apoptose, eles perdem seu núcleo e murcham. Esparramam-se ao longo do axônio e escondem os nódulos de Ranvier. O estímulo não flui. Aí, as micróglias entram em ação, secretam fatores neurotróficos sobre as células mortas, fagocitam o corpo morto e deixam espaço para o nascimento de novos oligodendrócitos. O sistema se refaz.
Suponha que, por algum motivo, esses fatores neurotróficos não funcionem, ou não estejam presentes em quantidade suficiente, e a fagocitação não se complete: o resíduo das células mortas impede a passagem do estímulo, e o conhecimento não se faz, ou não se faz a contento.
Imaginei algum evento cerebral que justificasse as características autistas: a rigidez de pensamento, o alto limiar à dor, a dificuldade de socialização, o interesse por partes do objeto, os diversos rituais. Se encontrasse tal evento, poderia usá-lo como tese a ser comprovada, como causa do autismo. Encontrei os fatores neurotróficos: pesquisas diversas disponíveis mostraram que um incremento artificial de fatores neurotróficos em cobaias fazia com que elas sentissem dor em situações injustificáveis, como uma carícia; que a apresentação de figuras aumenta a produção desses fatores seis a dez vezes mais frequentes do que a apresentação de palavras; que um ruído acima de certo tom cessava a fagocitação; que já foi descoberta uma versão, chamada de "net", de fatores neurotróficos defeituosos, que não se espalham por igual nos axônios e dificultam a fagocitação. Resovi investir nessa tese.
Primeiro, cataloguei ambientes que dificultavam a produção de fatores neurotróficos, para serem evitados; depois, ambientes que propiciavam a produção, a serem favorecidos. Disso deriva a dieta sensorial: ambiente que é benéfico a todos os sentidos, redutor de strees, e que é rico em estímulos que favorecem a produção de fatores neurotróficos. Criei um assim, em casa, praticamente transformei a casa num ambiente propício à dieta sensorial. E acabei entusiasmado com os resultados disso.
Ainda não consigo provar, cientificamente, que essa é a tese verdadeira. Mas ainda não encontrei um contra-ponto a isso. Então essa é a tese que persigo, e cujo sistema oriundo dela funciona muitissimo bem. De qualquer modo, é um ponto, e está aberto à discussão.

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